No Pantanal, até o fogo pode ser natural | Comida Boa - Do Campo à Mesa

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No Pantanal, até o fogo pode ser natural

No Pantanal, até o fogo pode ser natural

Certamente você ouviu falar das queimadas no Pantanal em 2020. Afinal, elas tiveram uma dimensão trágica no ano passado. Agora, o que você vai descobrir é que o fogo (num certo nível, é claro) faz parte da dinâmica natural desse Bioma. E acontece muito antes da chegada humana na região.

De acordo com o biólogo Geraldo Damasceno Júnior, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, sítios arqueológicos pantaneiros mostraram a existência de queimadas há mais de 8 mil anos.

Antes de existir o homem na região, já existia fogo.

O sistema tem o fogo como parte da dinâmica da paisagem. Ela inunda, seca, pega fogo e as espécies vegetais e animais vão se adaptando a esses ciclos.

Nesse patrimônio natural da humanidade, é preciso investir em preservação! Para conhecer mais, assista ao vídeo com lindas imagens capturadas pelo premiado documentarista brasileiro Lawrence Wahba.

O que aconteceu em 2020 foi algo excepcional. Os incêndios atingiram cerca de 27% da área pantaneira e ainda não se sabe, com certeza, o que fez com que tomasse tamanha proporção.

Combinação perfeita entre chuva e seca

A maior planície inundável do planeta ocupa 150 mil km² dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Com uma enorme biodiversidade, o bioma abriga milhares de espécies da flora e fauna brasileiras. Entre animais e plantas são, pelo menos, 4.700 espécies conhecidas.

O clima do Pantanal é típico do cerrado com muita chuva no verão, que inunda a planície, e seca no inverno.

O vai e vem das águas é o que permite a exuberância do ecossistema e representa o fator ecológico essencial para o equilíbrio do ambiente.

Geralmente, entre os meses de junho e setembro, boa parte das plantas nativas do cerrado seca por conta da falta de chuva, deixando o Pantanal suscetível aos incêndios. O fogo pode acontecer de forma natural pela descarga de raios, da combustão espontânea e do atrito entre as rochas.

A interação entre fogo e inundação é importante para a sobrevivência de algumas plantas nativas do Pantanal.

Sementes de determinadas espécies precisam de um choque térmico para sair do estado de dormência e germinar.

Com a elevação da temperatura, essas sementes racham, favorecendo a entrada de água e iniciando o processo de germinação. E qualquer desequilíbrio na relação entre chuva e seca traz consequências para o ecossistema pantaneiro. Para saber mais, confira o vídeo:

Seca histórica

A zootecnista Sandra Santos, pesquisadora da Embrapa Pantanal, explica que “os anos de 2019 e 2020 tiveram chuva abaixo do normal, ocasionando uma das maiores secas das últimas quatro décadas. A baixa umidade, associada a altas temperaturas, contribuiu para a ocorrência de grandes incêndios na região, especialmente, nas áreas do Pantanal com maior acúmulo de matéria vegetal”.

Desde o início de 2020, foram registrados incêndios subterrâneos na planície do rio Paraguai, em áreas que ficaram anos inundadas acumulando matéria orgânica. Quando secas, essas áreas formam turfa ou histosolo – vegetação decomposta que pode alcançar vários metros de profundidade – e é inflamável. Ao entrar em combustão, o fogo originado da turfa, pode se espalhar por baixo da camada mais superficial da terra e emergir.

Mas a ação humana também tem impacto sobre o ambiente pantaneiro. A prática das queimadas, usada para limpar áreas de pasto, é um problema. O fogo pode sair do controle e se espalhar pela vegetação seca.

Laurence Wahba comenta que a pecuária não pode ser responsabilizada pelos incêndios mas, ressalta o quanto é importante que os produtores adotem práticas de conservação nas áreas de pastagens.

Pode levar algum tempo até o Pantanal recuperar toda a sua exuberância. A pesquisadora Sandra Santos, explica que “a regeneração natural de uma área ocorre por meio dos propágulos das plantas (raízes, caules e banco de sementes que permanecem no solo).

A recuperação da flora do Pantanal vai depender muito dessa regeneração que varia em função da formação vegetal, do tipo do incêndio, localização e severidade do fogo. Mas o Pantanal é resiliente, como muitos afirmam, só que é preciso conscientização, mobilização, manejo adequado das atividades para que o bioma possa retomar toda a sua riqueza e esplendor”.

E mesmo que você não aprecie novelas, há quem diga que elas podem ajudar a sensibilizar muita gente nos temas de conservação. O Pantanal já foi retratado na obra de Benedito Ruy Barbosa, com 60% das cenas gravadas no Bioma e exibida na Rede Manchete em 1990. Quem sabe, o remake que vai acontecer na TV Globo, cumpra mais um papel importante na conscientização dos brasileiros.

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