Créditos de carbono: a commodity do futuro | Comida Boa - Do Campo à Mesa

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Créditos de carbono: a commodity do futuro

Créditos de carbono: a commodity do futuro

Você sabe o que são commodities? De forma ampla, podemos dizer que são produtos que funcionam como matéria-prima.

Numa tradução livre do inglês, commodity quer dizer mercadoria. No mercado atual, são consideradas commodities matérias-primas produzidas em larga escala que possam ser estocadas sem perder a qualidade. No caso da agricultura, soja, milho e café, por exemplo, são commodities. Os preços dessas mercadorias são definidos pela lei da oferta e procura.

Hoje, o mundo se prepara para tratar carbono da mesma forma. Ou seja, comprar e vender créditos de carbono do mesmo jeito que comercializamos commodities.

Líderes do mundo todo vem trabalhando para estabelecer metas de redução de emissão de gases de efeito estufa, que causam a elevação da temperatura do planeta, e mudanças climáticas.

A ideia do chamado mercado de créditos de carbono é compensar quem reduz as emissões de CO2  ou ajuda a retirar esse, e outros gases, do meio ambiente.

Funciona assim: se uma indústria, lavoura ou mesmo um país produz mais gases do que deveria, pode comprar créditos de quem economiza ou sequestra carbono. A cada tonelada de CO2 que deixa de ir para a atmosfera é gerado um crédito de carbono que pode ser negociado. Além de ajudar a equilibrar a conta da emissão de gases de efeito estufa, o mercado de carbono recompensa quem trabalha para minimizar o problema.

Para que você entenda melhor como tudo isso funciona, o Comida Boa conversou com um dos grandes especialistas brasileiros no tema: o agrônomo André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Como o agricultor pode comercializar créditos de carbono?

A agricultura representa mais ou menos 20% das emissões globais do planeta. O uso da terra contempla a agricultura, pecuária, desmatamento e queimadas. No caso do Brasil, atacar a mudança climática, significa de alguma maneira reduzir a emissão no meio rural. 40% das emissões brasileiras estão ligadas a desmatamento. Então, combater o desmatamento é a melhor resposta que o Brasil pode dar.

Uma fazenda que reduzir as emissões de carbono, pode vender créditos. Hoje, uma fazenda produz soja, algodão, boi, amanhã, continuará produzindo soja, algodão, boi e, eventualmente, produzindo carbono.

O que o agricultor precisa fazer no campo para se tornar um vendedor de crédito de carbono?

Adotar o plantio direto, por exemplo. A prática reduz, dependendo da região, de 3 a 4 passagens de trator pela terra porque não tem que arar. Não passando o trator, reduz a queima do diesel. Essa opção traz vários benefícios para o produtor, entre elas a redução da emissão do gás carbônico.

Na pecuária, hoje, temos o modelo extensivo no Brasil com uma lotação de pasto abaixo de 1 cabeça por hectare. Ao melhorar a qualidade da pastagem, do manejo do rebanho, ao utilizar o sistema rotacionado de pasto, se aumenta a eficiência do uso e encurta o ciclo. Ao invés de precisar de 30 meses, às vezes até mais, para engordar o animal, engorda-se em 18 meses. Então, aumenta a produtividade, reduz o ciclo e, consequentemente, também reduz as emissões de carbono.

Quando se adota o sistema ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), com pastagem, lavoura e floresta onde se tinha só pastagem, o volume de carbono sequestrado por hectare é muito maior. 

E como funciona esse mercado de créditos de carbono?

O Acordo de Paris, que é a grande arquitetura legal que vai permitir que essas trocas aconteçam, ainda não está finalizado. Esse processo de trocas de carbono tem que ter um tipo de regulação porque temos que medir o que está acontecendo no planeta para saber se, realmente, estamos reduzindo as emissões ou não. Não dá pra cada um começar a fazer projeto da sua cabeça porque, depois, não vamos saber se o efeito para o clima foi positivo ou não.

O Acordo de Paris é o arcabouço jurídico que permitirá o controle. A expectativa é que na reunião de Glasgow (Escócia), em dezembro deste ano, a gente consiga ter essa regulamentação para que os mercados de carbono possam funcionar.

Mas já existem acordos de compra e venda. Como fica a situação de quem realiza essa “negociação”?

Tem várias empresas comprando, vários fundos se posicionando, mas o mercado está funcionando numa dimensão voluntária. O que vai valer de fato é o mercado regulado pelo Acordo de Paris.

O investidor pioneiro sempre tem riscos adicionais, mas, por outro lado, por ser o primeiro a entrar no jogo, pode se beneficiar. Eventualmente, está comprando crédito de carbono barato hoje e, se entrar no mercado regulado no futuro, pode vender mais caro.

Eu acho que o mais interessante para a agricultura brasileira, e para o agricultor brasileiro, é que esse processo todo que venha ser desenvolvido no Brasil seja acoplado ao Acordo de Paris.

Portanto, nossa oportunidade está, até o início de 2022, em preparar o mercado brasileiro para que seja atraente para os investimentos externos que vão surgir. Fazer trocas, por exemplo, para que uma empresa que emite muito carbono em São Paulo possa compensar parte dessas emissões financiando a conservação em propriedades de Mato Grosso. O que eu espero é que o mercado regulado esteja funcionando no ano que vem.

Adotar métodos conservacionistas é o caminho?

Fizemos uma verdadeira revolução porque há 40, 50 anos, éramos importadores de alimentos e, hoje, somos o maior exportador das maiores commodities. Essa revolução aconteceu porque investimos em tecnologia. Mas, o modelo expansionista, não pode continuar. Nós temos que investir, agora, num modelo de intensificação.

Do ponto de vista técnico, não há nenhuma dúvida de que a gente tem o potencial de dobrar ou até triplicar a produção brasileira sem cortar nenhuma árvore. Temos na Amazônia em torno de 40, 50 milhões de hectares de pastagens degradadas, ou seja, sem produtividade e é ali que está avançando o ILPF. Esse é um outro exemplo, além de poder intensificar a pecuária, pode converter uma parte dessa pastagem degradada para atividades mais intensificadas como ILPF ou até lavoura, aumentando a rentabilidade e reduzindo a pressão sobre a floresta. Não existe possibilidade de atingirmos as metas do Acordo de Paris sem manter a integridade da Amazônia. A floresta amazônica armazena o equivalente a 10 anos de emissões humanas de carbono. Se a gente queimar a floresta, esse carbono vai para a atmosfera.

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